Dienstag, 18. September 2012

DA FALA

Flickering Trees, Jeff Koehn

DA FALA

Quando ainda não sabia as palavras possíveis

para passar entre voz e silêncio dos outros,
tal como entre troncos das florestas mudas,
eu falava com as nuvens que vinham
sobre nós a cantar, de trémulas asas,
e aspergiam os aromas de êxtase.


FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO, 

in AS FÁBULAS (Quasi, 2002)

CocoRosie - We Are On Fire


Dá-me a tua mão.























Óleo sobre tela: A Moonlit Lane, de John Atkinson Grimshaw


Dá-me a tua mão.

Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.


José Gomes Ferreira, 

in Poeta Militante I (Dom Quixote, 1999)

Sonntag, 16. September 2012



já bateu à porta 
uma daquelas noites
que me vêm 
desafiar
saber quem é
a mais forte
a mais resistente
de nós
quem chegará 
à margem alva


uma daquelas noites
que não espera
para entrar que 
penetra pesante
e me arrasta 
chocalhadas 
as vísceras
uivam dolentes

aa

Freitag, 7. September 2012

Wirf deine Angst in die Luft













Wirf deine Angst 
in die Luft 

Bald 
ist deine Zeit um 
Bald wächst der Himmel 
unter dem Gras 
fallen deine Träume 
ins Nirgends 

Noch 
duftet die Nelke 
singt die Drossel 
noch darfst du lieben 
Worte verschenken 
noch bist du da 

Sei was du bist 
Gib was du hast.

Rose Ausländer



Lança teu medo
para o ar

Cedo
acaba o teu tempo
Cedo
cresce o céu
debaixo da relva
os teus sonhos caem
para o nenhures

Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda podes amar
oferecer palavras
ainda estás cá

Sê o que és
Dá o que tens

(trad. aa)

Dienstag, 19. Juni 2012

Do not stand at my grave and weep




















Do not stand at my grave and weep
I am not there. I do not sleep.
I am a thousand winds that blow.
I am the diamond glints on snow.
I am the sunlight on ripened grain.
I am the gentle autumn rain.
When you awaken in the morning's hush
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circled flight.
I am the soft stars that shine at night.
Do not stand at my grave and cry;
I am not there. I did not die. 
Mary Elizabeth Frye

DIssociação


DIssociação

Aqueles olhos segredando de amor,

aquelas mãos alongando-se de amor,
aquele corpo todo ondulando de amor, e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.
E os meus olhos difusos nos seus olhos,
e as minhas mãos
apertando dedo a dedo as suas mãos
e o meu corpo buscando o seu corpo pele a pele.
E em mim
Só um vago desejo de dormir no seu regaço.

Jorge de Sena in “40 Anos de Servidão

Samstag, 6. August 2011






















A consciência que te acompanha no que vais sendo é o puro registo disso que vais sendo para o poderes ler, se quiseres, depois de já ter sido. Mas no instante de seres o que és, o que és é apenas, por uma decisão anterior ao decidires. O que és é-lo onde a tua realidade profunda em profundeza obscura se realizou. O que és é-lo no absoluto de ti. A consciência testifica-nos apenas como o ser privilegiado que sabe o que é por aquilo que vai sendo e pode assim reconverter-se à posse iluminada disso que vai sendo. A consciência constata mas não interfere senão para se não ser mais o que se foi, ou mais rigorosamente, para se não querer ser o que se é - o que é ser-se ainda, embora de outra maneira.
Porque se neste instante me sobreponho, ao que sou, outra maneira de ser - a consciência que me altera o primeiro modo de ser é a paralela iluminação do modo de ser segundo. Decidi ainda antes de decidir, quando decidi não ser o que primeiramente decidira. Assim no torvelinho dos actos que me presentificam e da consciência desses actos, sempre o insondável de nós se abre para lá do que podemos sondar. Sempre a realidade de nós é a realidade original que na origens se gera. Sempre a autenticidade de nós está a uma distância infinita das razões que a justificam.

Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo'

Donnerstag, 4. August 2011



















o que é que eu faço
com a tua presença
perpétua penetrante
permanente perdente

o que é que eu faço
com toda a tralha expulsa de mim
pensamentos presenças
poemas palavras perdidas

o que é que eu faço
com o espaço que sobra
o tempo que sobra
o sentimento que sobra

o que é que eu faço
com o vazio que sobra
com o silêncio que sobra
com a falta que me fazes

o que é que eu estou a fazer,
a perguntar justo a ti?

20/04/006
ondaJazz

Sonntag, 20. Februar 2011



O horizonte das palavras
Sem direcção, sem caminho

escrevo esta página que não tem alma dentro.

Se conseguir chegar à substância de um muro

acenderei a lâmpada de pedra na montanha.

E sem apoio penetro nos interstícios fugidios

ou enuncio as simples reiterações da terra,

as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos.

Tentarei construir a consistência num adágio

de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes.

E na substância entra a mão, o balbucio branco

de uma língua espessa, a madeira, as abelhas,

um organismo verde aberto sobre o mar,

as teclas do verão, as indústrias da água.

Eu sou agora o que a linguagem mostra

nas suas verdes estratégias, nas suas pontes

de música visual: o equilíbrio preenche os buracos

com arcos, colinas e com árvores.

Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.

O impronunciável é o horizonte do que é dito.



António Ramos Rosa
ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 81

Dienstag, 14. Dezember 2010

















Tentas de longe

Tentas, de longe, dizer que estás aqui.
Com peso triste caminha na rua o Outono.
O meu coração debruça-se à janela
a ver pessoas e carros, e as folhas caíndo.

Mastigo esta solidão
como quando era pequeno e jantava
diante dos pais zangados:
devagar, ausente.



Fernando Assis Pacheco, in "A musa irregular"

Ed. Asa, 1997

Freitag, 5. November 2010












Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sonntag, 31. Oktober 2010



















São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão

Maria do Rosário Pedreira

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa


que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me


a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

Maria do Rosário Pedreira

Montag, 11. Oktober 2010



















Procura a sua voz há anos muda em sinal

de protesto pelas vidas que lhe fogem
entre os dedos correntes vácuas tumultuosas
em leito superficial saltitam de seixo em seixo
perdendo-se em gotas que na margem morrem


Procura a voz profunda guia de viagens de outrora
infinitas de mente e coração e corpo
mergulhantes em abismos aterradores enfrentando
monstros uivantes até só restar o silêncio


Procura a voz que apenas no silêncio fala


aa

Sonntag, 3. Oktober 2010

Cordolium



o homem sem coração mastiga sem cessar
página após página dos seus milhares de tomos

misturadas com rúbeo vinho entranha trago atrás de trago
em busca da transubstanciação

pressente o vácuo mediastino o ausente pulsar
em vão expõe a carne buscando o jorrar quente e humano

por vezes parece vislumbrar um bater que já foi seu
por becos e vielas persegue metânicos fogos-fátuos

mas espantado pela aurora volta aos seus incunábulos
folha a folha gole a gole busca a plenitude o sentir


aa

Lhasa de Sela



O texto mais calado

É mais fácil escrever sem as mãos. Todas as pessoas do mundo são escritoras, sobretudo aquelas pessoas que nunca leram Rilke, nem choraram naquela página de Proust que é um manto de palavras sobre as madalenas e as lajes do tempo. Escrever sem as mãos acontece-me quando sei que sou mais, porque sinto que posso ser. A carne frágil das minhas mãos, cheia de febre, é só uma morte espantosa, o que sobra do tempo do mundo que admira o texto mais calado. Olho as fotografias dos meus avós e nelas vejo apenas o silêncio que foi retratado, uma luz que surpreende os meus olhos como se esta decorresse sempre do princípio da noite. Não há um único texto nestes retratos. A minha avó, feita de flor inteira, morreu dentro do meu corpo feito de estilhaços de pétalas e bátegas de vidro; o meu corpo é um buril que desenrola a melancolia. Talvez não importe mais nada a não ser isto. Uma noite longa que me venha consolar de vez em quando com as suas mãos de tecedeira, que me recolha dentro do berço futuro do meu passado, que me faça desaparecer das minhas mãos para as suas.

Sandra Costa