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Dienstag, 28. Oktober 2014

Freitag, 24. Oktober 2014

Nicht müde werden



Nicht müde werden
sondern dem Wunder
leise
wie einem Vogel
die Hand hinhalten.

Hilde Domin

Freitag, 3. Oktober 2014

Mittwoch, 1. Oktober 2014

Fugiste




Maria Teresa Horta

Donnerstag, 21. November 2013












 



Duas vezes nada
 
É assim, amiga. Encontramo-nos
quando calha nos bares de antigamente,
deixando que sobre o tampo azul
das mesas volte a pousar
um baço cemitério de garrafas.

Constatamos o pior, os seus aspectos.
Corpos e livros que foram ficando
por ler na voracidade da noite de Lisboa.
De facto, crescemos em alcoolémia,
acordamos tarde, em pânico,
e perdemos os dias e os dentes
com uma espécie de resignação.
Não temos, ao que parece, serventia.

Sorrimos um pouco, ao terceiro
gin, como quem renasce para a morte,
seus gestos de ternura ou de exuberância.
Talvez tenhamos calculado mal
o ângulo da queda, esta vitória
sem nobreza dos venenos todos.

Mas agora é tarde. Tudo fechou
para nós, para sempre. O amor,
o desejo, até o onanismo da destruição.
Antes de procurares a esmola
do último táxi, fica esta imagem
parada, a desvanecer-se
no frio mais frio da memória:

não dois corpos sentados a trocarem
medo, cigarros e palavras póstumas,
mas duas vezes nada, ninguém,
o silêncio da noite destronando
as cadeiras onde por razão nenhuma
nos sentámos. Os anos, amiga, passaram.
 
 
Manuel de Freitas

Mittwoch, 20. November 2013



















e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão 
deixas viver sobre a pele uma criança de lume 
e na fria lava da noite ensinas ao corpo 
a paciência o amor o abandono das palavras 
o silêncio 
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

Mittwoch, 29. Mai 2013





















CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


Carlos Drummond de Andrade 

in Sentimento do Mundo

Sonntag, 17. Februar 2013

Admonitions To A Special Person


Admonitions To A Special Person


Watch out for power,
for its avalanche can bury you,
snow, snow, snow, smothering your mountain.

Watch out for hate,
it can open its mouth and you'll fling yourself out
to eat off your leg, an instant leper.

Watch out for friends,
because when you betray them,
as you will,
they will bury their heads in the toilet
and flush themselves away.

Watch out for intellect,
because it knows so much it knows nothing
and leaves you hanging upside down,
mouthing knowledge as your heart
falls out of your mouth.

Watch out for games, the actor's part,
the speech planned, known, given,
for they will give you away
and you will stand like a naked little boy,
pissing on your own child-bed.

Watch out for love
(unless it is true,
and every part of you says yes including the toes) ,
it will wrap you up like a mummy,
and your scream won't be heard
and none of your running will end.

Love? Be it man. Be it woman.
It must be a wave you want to glide in on,
give your body to it, give your laugh to it,
give, when the gravelly sand takes you,
your tears to the land. To love another is something
like prayer and can't be planned, you just fall
into its arms because your belief undoes your disbelief.

Special person,
if I were you I'd pay no attention
to admonitions from me,
made somewhat out of your words
and somewhat out of mine.
A collaboration.
I do not believe a word I have said,
except some, except I think of you like a young tree
with pasted-on leaves and know you'll root
and the real green thing will come.

Let go. Let go.
Oh special person,
possible leaves,
this typewriter likes you on the way to them,
but wants to break crystal glasses
in celebration,
for you,
when the dark crust is thrown off
and you float all around
like a happened balloon.

Freitag, 26. Oktober 2012

I shall not live in Vain














I shall not live in Vain

If I can stop one Heart from breaking
I shall not live in vain
If I can ease one Life the Aching
Or cool one Pain
Or help one fainting Robin
Unto his Nest again
I shall not live in Vain.

Emily Dickinson

Mittwoch, 17. Oktober 2012

Mirror






















 Mirror

I am silver and exact. I have no preconceptions.
What ever you see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful---
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.
Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.


Sylvia Plath
in CROSSING THE WATER (Faber and Faber, London, 1971)

Samstag, 29. September 2012












sussurrando à rosa
alguma coisa em segredo
ela corta a rosa

Kuroda Momoko

in O japão no feminino II, sec Xvii a XX, (assírio e alvim, 2007)
versão portuguesa de Luísa Freire

(imagem: Yuriko Toi)

Donnerstag, 27. September 2012

NOS DIAS TRISTES NÃO SE FALA DE AVES

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.
 
Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.
 
Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.
 
Filipa Leal

Montag, 24. September 2012

Der Radwechsel

 

 

 

 

 

 

 


 

Der Radwechsel

Ich sitze am Straßenhang.
Der Fahrer wechselt das Rad.
Ich bin nicht gern, wo ich herkomme.
Ich bin nicht gern, wo ich hinfahre.
Warum sehe ich den Radwechsel
mit Ungeduld?

Bertolt Brecht



A mudança de roda

Estou sentado na berma da estrada.
O condutor muda a roda.
Não gosto de estar de onde venho.
Não gosto de estar para onde vou.
Porque observo a mudança de roda
com impaciência?

trad.: aa

Der Brunnen

 

 

 

 

 

 

 


 

Der Brunnen

Im verbrannten Hof
Steht noch der Brunnen
Voll Tränen
Wer weinte sie
Wer trinkt seinen Durst leer


Rose Ausländer aus  "Andere Zeichen" (1975)


O poço

No pátio queimado
Encontra-se ainda o poço
Cheio de lágrimas
Quem as chorou
Quem mata a sua sede

trad: aa


Sonntag, 23. September 2012

Allein










Allein
Ich lebe allein
mit dem Lied

Meine Fragen
werden nicht fertig

Der Himmel antwortet
nein
ja

Ich weiß nicht
wo das Ende beginnt
der Anfang endet


(aus: Rose Auslander: Ich höre das Herz des Oleanders. Gedichte 1977-1979, 1984)


Eu vivo só
com a canção

As minhas perguntas
não ficam prontas

O céu responde
não
sim

Eu não sei
onde começa o fim
termina o início

trad.: aa

Abschied








Abschied
Du denkst deinen
strömenden Tag
schwimmst mühsam
durch das Stundenwasser
Die Nacht
denkt dich
von Stern zu Stern
Im Schlafwandelatem
du merkst nicht
dass du Abschied nimmst

(aus: Rose Auslander: Im Aschenregen die Spur deines Namens. Gedichte und Prosa 1976, 1984)



Despedida
Tu pensas o teu
dia corrente
nadas penosamente
através da àgua das horas
A noite
pensa-te
de estrela em estrela
No fôlego sonâmbulo
não reparas
que dizes adeus

trad: aa

Dienstag, 18. September 2012

DA FALA

Flickering Trees, Jeff Koehn

DA FALA

Quando ainda não sabia as palavras possíveis

para passar entre voz e silêncio dos outros,
tal como entre troncos das florestas mudas,
eu falava com as nuvens que vinham
sobre nós a cantar, de trémulas asas,
e aspergiam os aromas de êxtase.


FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO, 

in AS FÁBULAS (Quasi, 2002)

Dá-me a tua mão.























Óleo sobre tela: A Moonlit Lane, de John Atkinson Grimshaw


Dá-me a tua mão.

Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.


José Gomes Ferreira, 

in Poeta Militante I (Dom Quixote, 1999)