Dienstag, 16. Oktober 2007

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.


Vinicius deMoraes

Carlos Drummond de Andrade

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.

Mittwoch, 3. Oktober 2007

b.leza

















Quando pronunciei o não,
achando que o escutarias tão
facilmente quanto eu o dizia,
não esperava o marejar nos teus olhos,
surpreendeu-me o tremor na tua voz.

Quando pronunciei o não,
aliviando as complexidades da minha vida,
não pensava tirar riqueza à tua,
nem sentir o gosto amargo da leviandade
na minha boca.

aa

Dienstag, 2. Oktober 2007

Dunkelste Stunden















Das sind die Stunden, die wir nicht begreifen!

Sie beugen uns in Todestiefen nieder
Und löschen aus, was wir von Trost gewußt,
Sie reißen uns geheimgehaltene Lieder
Mit blutend wunden Wurzeln aus der Brust.

Und doch sind das die Stunden, deren Last
Uns Stille lehrt und innerlichste Rast
Und die zu Weisen uns und Dichtern reifen.

H. Hesse

babel






com suprema malícia
o ditador celeste
dividiu para pontificar
sobre uma Humanidade
doravante incomunicável,
para sempre privada
da primitiva comunhão,
impondo-se na sua omnisciência
como tradutor exclusivo

no seu excelso convencimento
olvidou a semente da rebelião
ingerida com a edénica maçã,
que nos impele à liberdade
em busca da negada palavra,
do entendimento instantâneo,
da comunicação permanente,
da partilha pacífica das almas

aa

A Palavra Impossível








Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.

Adolfo Casais Monteiro

Donnerstag, 27. September 2007

Ana - Ismael Serrano

Monthly blood

A lua nova traz de novo a pequena desilusão

Vida virtual que se esvai pelo ralo durante o duche

Colo tumefacto em preparação do que não tomou raiz

Potencial divino mensalmente negado

Pago em sangue

aa

Dienstag, 25. September 2007

Beckett

Just under the surface I shall be, all together at first, then separate and drift, through all the earth and perhaps in the end through a cliff into the sea, something of me. A ton of worms in an acre, that is a wonderful thought, a ton of worms, I believe it.

Montag, 24. September 2007

22.09.2006

Ainda franqueavas o umbral do meu quarto nessa primeira noite
E ditos estavam os adeuses que nos apartariam
Meu amor instantâneo

Uma falta de cuidado
Um excesso de aceitação
Fez perceber
O pouco valor atribuído ao momento

De repente remetido de novo para a corrente banal
Não mais único
Irrepetível pela cessação da antecipação.

aa

Riqueza










Tengo la dicha fiel y la dicha perdida:
la una como rosa,
la otra como espina.
De lo que me robaron no fui desposeída;
tengo la dicha fiel
y la dicha perdida,
y estoy rica de púrpura
y de melancolía.
¡Ay, qué amante es la rosa
y qué amada la espina!
Como el doble contorno
de dos frutas mellizas
tengo la dicha fiel
y la dicha perdida.

Gabriela Mistral

Mittwoch, 19. September 2007

Denouement

Quando entrei hoje no quarto da D. Guiomar, a sua ausência habitual tinha-se tornado absoluta. O que quer que fosse que mantivesse o seu corpo a respirar, a palpitar, tinha-se esvaído, gasto ao longo de 85 anos de reacções químicas.

Nunca conheci a D. Guiomar. Pela altura em que nos foi trazida, de corpo doente e moribundo, o seu espírito há já muito que tinha partido, presente sómente na memória familiar, inatingível para estranhos.

Tratei as suas feridas, as dores que admiti que tivesse, embora sem o poder saber com qualquer grau de certeza. Há alturas em que acalmamos primordialmente a nossa própria dúvida.

Nunca senti a D. Guiomar. Paradoxalmente, aqueles que a conheceram e amaram, aqueles em cujo relembrar lhe seria permitido manter-se viva, comunicante, negaram-lhe esse último direito, valorizando o padecimento somático, entregando a estranhos esse resquício de dignidade que é morrer rodeado pelas nossas memórias.

A D. Guiomar extinguiu-se na mais inatingível solidão.


Boa Sorte

há tantas pessoas especiais no mundo

Lonely Mountain


There are many paths that lead to the summit of one and the same mountain; their differences are more apparent the lower down we are but they vanish at the peak. Each person will naturally take the path which starts from the point at which they find themselves. One who goes around the mountain looking for another is not climbing.
ANANDA COOMARASWAMI

Dienstag, 18. September 2007

Sonntag, 16. September 2007

Frésias

Frésias são flores com cheiro a chá
e ela, aos trinta e sete anos, preferia-as
às flores que se vendem por aí
admitia a beleza mas não o esplendor
porque são tristes as repetições
num instante se tornam saberes
e ela, aos trinta e sete anos,
prezava apenas os segredos que mesmo ditos
permanecem segredos

(em certas épocas, por alguma porta esquecida
escapava-se, sonâmbula, para o pátio
que dá acesso à mata
e, por vezes, iam buscá-la
gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães
já muito longe de casa

tinha por hábito acender fogueiras
de que, depois, se esquecia
e por isso também os aldeões
a temiam)

nunca compreendeu a natureza da vida doméstica
intensa e aflita criança
incapaz de certezas

o que de mais belo soube
sempre o disse, de repente,
a alguém que não conhecia

José Tolentino Mendonça
in Baldios

Donnerstag, 13. September 2007

ALMA

Delete. Delete. Tab + Shift. Esc.
Ctrl + Alt + Delete.
Formatada.
Aberta a novos
Bits
.
aa

- o tempo esvai-se

em vãs tentativas –

foi o que me saiu da

caneta quando viraste

a esquina no fim

de um encontro

embaraçado em que

desonramos as palavras

pelo uso frívolo

- silêncios a encher -

que delas fizemos.

não posso deixar de

notar o alívio no

entanto de mais

uma decisão que

se obviou.


07-03-000

Fábrica dos Pastéis de Belém

Mangas verdes com sal

 "Mangas verdes com sal

Mangas verdes com sal
sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.

Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido,
na maré-baixa,
no minuto da suprema humilhação.

Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato amargo,
à boca ardida,
à crista do tempo,
ao meio da vida."

Rui Knopfli (1972)

Mittwoch, 5. September 2007


"O que me sustenta é a beleza. Rezo ao deserto para que continue a receber-me; rezo ao mar, e em especial ao grande e sereno Oceano Índico, para que não deixe nunca de me consolar com a sua voz de espuma; rezo às papaias pela sua carne e às goiabas pelo seu perfume.
Rezo ao deus indiferente dos gatos porque os fez magníficos e ao das baleias e das vacas pela sua mansidão.
Sou mulher: rezo a tudo o que floresce e frutifica. Nada que cante ou que dance me é indiferente. Nada que fira ou destrua me é semelhante."
Faíza Hayat