Mittwoch, 19. September 2007

Denouement

Quando entrei hoje no quarto da D. Guiomar, a sua ausência habitual tinha-se tornado absoluta. O que quer que fosse que mantivesse o seu corpo a respirar, a palpitar, tinha-se esvaído, gasto ao longo de 85 anos de reacções químicas.

Nunca conheci a D. Guiomar. Pela altura em que nos foi trazida, de corpo doente e moribundo, o seu espírito há já muito que tinha partido, presente sómente na memória familiar, inatingível para estranhos.

Tratei as suas feridas, as dores que admiti que tivesse, embora sem o poder saber com qualquer grau de certeza. Há alturas em que acalmamos primordialmente a nossa própria dúvida.

Nunca senti a D. Guiomar. Paradoxalmente, aqueles que a conheceram e amaram, aqueles em cujo relembrar lhe seria permitido manter-se viva, comunicante, negaram-lhe esse último direito, valorizando o padecimento somático, entregando a estranhos esse resquício de dignidade que é morrer rodeado pelas nossas memórias.

A D. Guiomar extinguiu-se na mais inatingível solidão.


Boa Sorte

há tantas pessoas especiais no mundo

Lonely Mountain


There are many paths that lead to the summit of one and the same mountain; their differences are more apparent the lower down we are but they vanish at the peak. Each person will naturally take the path which starts from the point at which they find themselves. One who goes around the mountain looking for another is not climbing.
ANANDA COOMARASWAMI

Dienstag, 18. September 2007

Sonntag, 16. September 2007

Frésias

Frésias são flores com cheiro a chá
e ela, aos trinta e sete anos, preferia-as
às flores que se vendem por aí
admitia a beleza mas não o esplendor
porque são tristes as repetições
num instante se tornam saberes
e ela, aos trinta e sete anos,
prezava apenas os segredos que mesmo ditos
permanecem segredos

(em certas épocas, por alguma porta esquecida
escapava-se, sonâmbula, para o pátio
que dá acesso à mata
e, por vezes, iam buscá-la
gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães
já muito longe de casa

tinha por hábito acender fogueiras
de que, depois, se esquecia
e por isso também os aldeões
a temiam)

nunca compreendeu a natureza da vida doméstica
intensa e aflita criança
incapaz de certezas

o que de mais belo soube
sempre o disse, de repente,
a alguém que não conhecia

José Tolentino Mendonça
in Baldios

Donnerstag, 13. September 2007

ALMA

Delete. Delete. Tab + Shift. Esc.
Ctrl + Alt + Delete.
Formatada.
Aberta a novos
Bits
.
aa

- o tempo esvai-se

em vãs tentativas –

foi o que me saiu da

caneta quando viraste

a esquina no fim

de um encontro

embaraçado em que

desonramos as palavras

pelo uso frívolo

- silêncios a encher -

que delas fizemos.

não posso deixar de

notar o alívio no

entanto de mais

uma decisão que

se obviou.


07-03-000

Fábrica dos Pastéis de Belém

Mangas verdes com sal

 "Mangas verdes com sal

Mangas verdes com sal
sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.

Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido,
na maré-baixa,
no minuto da suprema humilhação.

Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato amargo,
à boca ardida,
à crista do tempo,
ao meio da vida."

Rui Knopfli (1972)

Mittwoch, 5. September 2007


"O que me sustenta é a beleza. Rezo ao deserto para que continue a receber-me; rezo ao mar, e em especial ao grande e sereno Oceano Índico, para que não deixe nunca de me consolar com a sua voz de espuma; rezo às papaias pela sua carne e às goiabas pelo seu perfume.
Rezo ao deus indiferente dos gatos porque os fez magníficos e ao das baleias e das vacas pela sua mansidão.
Sou mulher: rezo a tudo o que floresce e frutifica. Nada que cante ou que dance me é indiferente. Nada que fira ou destrua me é semelhante."
Faíza Hayat

Montag, 3. September 2007

Neste nosso desencontro coube-me a ingrata tarefa de ser a mais forte. Assim o decidiste.
Desde a confissão secreta que me arrancou do meu suave ignorar, às tiradas que me coube rebater, ao compromisso prévio que tive de te ajudar a honrar de coração sangrante, à cedência que houve que manter única, à ingratidão de me julgares distante por te negar o caminho fácil.
Resguardaste-te de todas as tormentas atrás do molde em que me verteste, sem jamais suspeitares da pequenez do mesmo, sem noção das amputações necessárias para o mais perfeito encaixe, sem entenderes, por fim, a razão do meu passar, asfixiada e exangue.


aa

Sonntag, 2. September 2007

PRESSA

se todas as noites
fossem esta noite
o amor
não tinha fim
o coração
não se calava
os olhos
não se fechavam
mas esta noite
é todas as noites
todo o amor
tem de se conter nela
até à chegada da luz
os olhos fecham-se
para atrasar a dor
o coração cala-se
silêncio resignado
na prisão do tempo

aa

Mittwoch, 29. August 2007

Ainda Vinicius

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

Mittwoch, 22. August 2007

L'ignorance est la nuit de l'esprit, et cette nuit n'a ni lune ni étoiles.

Montag, 20. August 2007

Im Nebel

Seltsam, im Nebel zu wandern!

Einsam ist jeder Busch und Stein.

Kein Baum sieht den andern,

Jeder ist allein.

Voll von Freunden war mir die Welt,

Als noch mein Leben licht war,

Nun, da der nebel fällt,

Ist keiner mehr sichtbar.

Wahrlich, keiner ist weise,

Der nicht das Dunkel kennt,

Das unentrinnbar und leise

Von allen ihn trennt.

Seltsam, im Nebel zu wandern!

Leben ist einsam sein.

Kein Mensch kennt den andern,

Jeder ist allein.

Hermann Hesse (1877-1962)

Freitag, 17. August 2007

almada

"Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido."

Almada Negreiros

Sonntag, 20. Mai 2007

Falling out of love

Assombroso.
Um comentário fútil.
Um olhar desdenhoso.
Dirigidos a quem não tem culpa de ser diferente.
Um sorriso troceiro.
Uma piscadela procurando a minha aprovação.
De repente sei que não te amo.

aa

Mittwoch, 16. Mai 2007

Ainda Vinícius

Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Montag, 14. Mai 2007

Sempre Vinicius

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Sonntag, 13. Mai 2007

Anita no Brasil

Não vou lavar a cara que hoje beijaste à despedida -
5 segundos a mais do que convencionado.
Decerto que deixaste dna suficiente para te clonar -
amanhã já me tornarei cientista.
Há que correr, antes de morrer de inanição -
os lábios que tocaste não serão aflorados por mais nada.

aa



Porque foste na vida
A última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras meu
Sem eu saber sequer
Porque és o meu homem
E eu tua mulher.

Porque tu me chegaste
Sem me dizer que vinhas
E tuas mãos foram minhas com calma
Porque foste em minh'alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser.

Vinicius de Moraes

Mittwoch, 9. Mai 2007

and you will never know all the places that i'll go to without u

partilhar no fundo significa experimentar duas vezes
viver duas vezes
gostar ou desgostar ou ambos ao mesmo tempo
vida elevada a dois

imaginar
como seria se estivesses aqui
no fundo
não é bem a mesma coisa

aa