Mittwoch, 17. Oktober 2012
Mirror
Mirror
I am silver and exact. I have no preconceptions.
What ever you see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful---
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.
Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.
Sylvia Plath
in
Dienstag, 16. Oktober 2012
A PALAVRA TRANSFIGURADA
A PALAVRA TRANSFIGURADA
Como incendiar a página com uma linguagem nua e frágil? Nada se escreve sem terror perante o inerte e a plenitude de uma linguagem vã. As folhas fatigam-se, envelhecem, e o bolor é o futuro condenado de todos os vocábulos. Como penetrar nos interstícios do invisível e aí buscar a libertação soberana de uma linguagem fulgurante? A criação é uma destruição em que os gritos e os murmúrios de uma insoldável agonia são sufocados na garganta das palavras. Como libertar a palavra da passiva escravidão da morte? O que nos liga é o que nos liberta: a sede de um lugar livre sem o peso da servidão e dos discursos. Se cada palavra é o limitar de um deserto, como incendiar os grãos de areia para construir a cada de fogo que é o poema? Serão as palavras sombras sobre um invisível muro? Os vocábulos imitam as pedras e as estrelas e podem tornar-se a vivacidade feliz de uma festa miniatural. Mais do que as palavras, o que resta é o espaço que resta entre os vocábulos no branco da página. A linguagem é uma página de sinais esquecidos. Depois de todas as imagens, depois da última palavra, permanece o amor frágil de uma imagem suspensa, como que interdita sobre a aresta de um obstáculo. É a imagem que se apaga, que se perde, e no entanto caminha para o desconhecido e ganha o sombrio fulgor da palavra transfigurada.
ANTÓNIO RAMOS ROSA,
Como incendiar a página com uma linguagem nua e frágil? Nada se escreve sem terror perante o inerte e a plenitude de uma linguagem vã. As folhas fatigam-se, envelhecem, e o bolor é o futuro condenado de todos os vocábulos. Como penetrar nos interstícios do invisível e aí buscar a libertação soberana de uma linguagem fulgurante? A criação é uma destruição em que os gritos e os murmúrios de uma insoldável agonia são sufocados na garganta das palavras. Como libertar a palavra da passiva escravidão da morte? O que nos liga é o que nos liberta: a sede de um lugar livre sem o peso da servidão e dos discursos. Se cada palavra é o limitar de um deserto, como incendiar os grãos de areia para construir a cada de fogo que é o poema? Serão as palavras sombras sobre um invisível muro? Os vocábulos imitam as pedras e as estrelas e podem tornar-se a vivacidade feliz de uma festa miniatural. Mais do que as palavras, o que resta é o espaço que resta entre os vocábulos no branco da página. A linguagem é uma página de sinais esquecidos. Depois de todas as imagens, depois da última palavra, permanece o amor frágil de uma imagem suspensa, como que interdita sobre a aresta de um obstáculo. É a imagem que se apaga, que se perde, e no entanto caminha para o desconhecido e ganha o sombrio fulgor da palavra transfigurada.
ANTÓNIO RAMOS ROSA,
in QUANDO O INEXORÁVEL (1983)
Samstag, 29. September 2012
Donnerstag, 27. September 2012
NOS DIAS TRISTES NÃO SE FALA DE AVES
Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.
Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.
Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.
Filipa Leal
Montag, 24. September 2012
Der Radwechsel
Der Radwechsel
Ich sitze am Straßenhang.
Der Fahrer wechselt das Rad.
Ich bin nicht gern, wo ich herkomme.
Ich bin nicht gern, wo ich hinfahre.
Warum sehe ich den Radwechsel
mit Ungeduld?
Der Fahrer wechselt das Rad.
Ich bin nicht gern, wo ich herkomme.
Ich bin nicht gern, wo ich hinfahre.
Warum sehe ich den Radwechsel
mit Ungeduld?
Bertolt Brecht
A mudança de roda
Estou sentado na berma da estrada.
O condutor muda a roda.
Não gosto de estar de onde venho.
Não gosto de estar para onde vou.
Porque observo a mudança de roda
com impaciência?
trad.: aa
Der Brunnen
Der Brunnen
Im verbrannten Hof
Steht noch der Brunnen
Voll Tränen
Wer weinte sie
Wer trinkt seinen Durst leer
Rose Ausländer aus "Andere Zeichen" (1975)
O poço
No pátio queimado
Encontra-se ainda o poço
Cheio de lágrimas
Quem as chorou
Quem mata a sua sede
trad: aa
Sonntag, 23. September 2012
Allein
Allein
Ich lebe allein
mit dem Lied
Meine Fragen
werden nicht fertig
Der Himmel antwortet
nein
ja
Ich weiß nicht
wo das Ende beginnt
der Anfang endet
mit dem Lied
Meine Fragen
werden nicht fertig
Der Himmel antwortet
nein
ja
Ich weiß nicht
wo das Ende beginnt
der Anfang endet
(aus: Rose Auslander: Ich höre das Herz des Oleanders. Gedichte 1977-1979, 1984)
Só
Eu vivo só
com a canção
As minhas perguntas
não ficam prontas
O céu responde
não
sim
Eu não sei
onde começa o fim
termina o início
As minhas perguntas
não ficam prontas
O céu responde
não
sim
Eu não sei
onde começa o fim
termina o início
trad.: aa
Abschied
Abschied
Du denkst deinen
strömenden Tag
schwimmst mühsam
durch das Stundenwasser
strömenden Tag
schwimmst mühsam
durch das Stundenwasser
Die Nacht
denkt dich
von Stern zu Stern
denkt dich
von Stern zu Stern
Im Schlafwandelatem
du merkst nicht
dass du Abschied nimmst
du merkst nicht
dass du Abschied nimmst
(aus: Rose Auslander: Im Aschenregen die Spur deines Namens. Gedichte und Prosa 1976, 1984)
Despedida
Tu pensas o teu
dia corrente
nadas penosamente
através da àgua das horas
nadas penosamente
através da àgua das horas
A noite
pensa-te
de estrela em estrela
pensa-te
de estrela em estrela
No fôlego sonâmbulo
não reparas
que dizes adeus
não reparas
que dizes adeus
trad: aa
Dienstag, 18. September 2012
DA FALA
Flickering Trees, Jeff Koehn
DA FALA
Quando ainda não sabia as palavras possíveis
in AS FÁBULAS (Quasi, 2002)
DA FALA
Quando ainda não sabia as palavras possíveis
para passar entre voz e silêncio dos outros,
tal como entre troncos das florestas mudas,
eu falava com as nuvens que vinham
sobre nós a cantar, de trémulas asas,
e aspergiam os aromas de êxtase.
tal como entre troncos das florestas mudas,
eu falava com as nuvens que vinham
sobre nós a cantar, de trémulas asas,
e aspergiam os aromas de êxtase.
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO,
in AS FÁBULAS (Quasi, 2002)
Dá-me a tua mão.
Óleo sobre tela: A Moonlit Lane, de John Atkinson Grimshaw
Dá-me a tua mão.
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.
Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.
José Gomes Ferreira,
in Poeta Militante I (Dom Quixote, 1999)
Sonntag, 16. September 2012
Freitag, 7. September 2012
Wirf deine Angst in die Luft
Wirf deine Angst
in die Luft
Bald
ist deine Zeit um
Bald wächst der Himmel
unter dem Gras
fallen deine Träume
ins Nirgends
Noch
duftet die Nelke
singt die Drossel
noch darfst du lieben
Worte verschenken
noch bist du da
Sei was du bist
Gib was du hast.
Rose Ausländer
Lança teu medo
para o ar
Cedo
acaba o teu tempo
Cedo
cresce o céu
debaixo da relva
os teus sonhos caem
para o nenhures
Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda podes amar
oferecer palavras
ainda estás cá
Sê o que és
Dá o que tens
(trad. aa)
Dienstag, 19. Juni 2012
Do not stand at my grave and weep
Do not stand at my grave and weep
I am not there. I do not sleep.
I am a thousand winds that blow.
I am the diamond glints on snow.
I am the sunlight on ripened grain.
I am the gentle autumn rain.
When you awaken in the morning's hush
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circled flight.
I am the soft stars that shine at night.
Do not stand at my grave and cry;
I am not there. I did not die.
Mary Elizabeth Frye
DIssociação
DIssociação
Aqueles olhos segredando de amor,
aquelas mãos alongando-se de amor,
aquele corpo todo ondulando de amor, e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.
E os meus olhos difusos nos seus olhos,
e as minhas mãos
apertando dedo a dedo as suas mãos
e o meu corpo buscando o seu corpo pele a pele.
E em mim
Só um vago desejo de dormir no seu regaço.
Samstag, 6. August 2011
A consciência que te acompanha no que vais sendo é o puro registo disso que vais sendo para o poderes ler, se quiseres, depois de já ter sido. Mas no instante de seres o que és, o que és é apenas, por uma decisão anterior ao decidires. O que és é-lo onde a tua realidade profunda em profundeza obscura se realizou. O que és é-lo no absoluto de ti. A consciência testifica-nos apenas como o ser privilegiado que sabe o que é por aquilo que vai sendo e pode assim reconverter-se à posse iluminada disso que vai sendo. A consciência constata mas não interfere senão para se não ser mais o que se foi, ou mais rigorosamente, para se não querer ser o que se é - o que é ser-se ainda, embora de outra maneira.
Porque se neste instante me sobreponho, ao que sou, outra maneira de ser - a consciência que me altera o primeiro modo de ser é a paralela iluminação do modo de ser segundo. Decidi ainda antes de decidir, quando decidi não ser o que primeiramente decidira. Assim no torvelinho dos actos que me presentificam e da consciência desses actos, sempre o insondável de nós se abre para lá do que podemos sondar. Sempre a realidade de nós é a realidade original que na origens se gera. Sempre a autenticidade de nós está a uma distância infinita das razões que a justificam.
Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo'
Donnerstag, 4. August 2011
o que é que eu faço
com a tua presença
perpétua penetrante
permanente perdente
o que é que eu faço
com toda a tralha expulsa de mim
pensamentos presenças
poemas palavras perdidas
o que é que eu faço
com o espaço que sobra
o tempo que sobra
o sentimento que sobra
o que é que eu faço
com o vazio que sobra
com o silêncio que sobra
com a falta que me fazes
o que é que eu estou a fazer,
a perguntar justo a ti?
a perguntar justo a ti?
20/04/006
ondaJazz
Sonntag, 20. Februar 2011
O horizonte das palavras |
| Sem direcção, sem caminho escrevo esta página que não tem alma dentro. Se conseguir chegar à substância de um muro acenderei a lâmpada de pedra na montanha. E sem apoio penetro nos interstícios fugidios ou enuncio as simples reiterações da terra, as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos. Tentarei construir a consistência num adágio de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes. E na substância entra a mão, o balbucio branco de uma língua espessa, a madeira, as abelhas, um organismo verde aberto sobre o mar, as teclas do verão, as indústrias da água. Eu sou agora o que a linguagem mostra nas suas verdes estratégias, nas suas pontes de música visual: o equilíbrio preenche os buracos com arcos, colinas e com árvores. Um alvor nasceu nas palavras e nos montes. O impronunciável é o horizonte do que é dito. António Ramos Rosa ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 81 |
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