Freitag, 7. September 2012
Wirf deine Angst in die Luft
Wirf deine Angst
in die Luft
Bald
ist deine Zeit um
Bald wächst der Himmel
unter dem Gras
fallen deine Träume
ins Nirgends
Noch
duftet die Nelke
singt die Drossel
noch darfst du lieben
Worte verschenken
noch bist du da
Sei was du bist
Gib was du hast.
Rose Ausländer
Lança teu medo
para o ar
Cedo
acaba o teu tempo
Cedo
cresce o céu
debaixo da relva
os teus sonhos caem
para o nenhures
Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda podes amar
oferecer palavras
ainda estás cá
Sê o que és
Dá o que tens
(trad. aa)
Dienstag, 19. Juni 2012
Do not stand at my grave and weep
Do not stand at my grave and weep
I am not there. I do not sleep.
I am a thousand winds that blow.
I am the diamond glints on snow.
I am the sunlight on ripened grain.
I am the gentle autumn rain.
When you awaken in the morning's hush
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circled flight.
I am the soft stars that shine at night.
Do not stand at my grave and cry;
I am not there. I did not die.
Mary Elizabeth Frye
DIssociação
DIssociação
Aqueles olhos segredando de amor,
aquelas mãos alongando-se de amor,
aquele corpo todo ondulando de amor, e em mim
só um vago desejo de dormir no seu regaço.
E os meus olhos difusos nos seus olhos,
e as minhas mãos
apertando dedo a dedo as suas mãos
e o meu corpo buscando o seu corpo pele a pele.
E em mim
Só um vago desejo de dormir no seu regaço.
Samstag, 6. August 2011
A consciência que te acompanha no que vais sendo é o puro registo disso que vais sendo para o poderes ler, se quiseres, depois de já ter sido. Mas no instante de seres o que és, o que és é apenas, por uma decisão anterior ao decidires. O que és é-lo onde a tua realidade profunda em profundeza obscura se realizou. O que és é-lo no absoluto de ti. A consciência testifica-nos apenas como o ser privilegiado que sabe o que é por aquilo que vai sendo e pode assim reconverter-se à posse iluminada disso que vai sendo. A consciência constata mas não interfere senão para se não ser mais o que se foi, ou mais rigorosamente, para se não querer ser o que se é - o que é ser-se ainda, embora de outra maneira.
Porque se neste instante me sobreponho, ao que sou, outra maneira de ser - a consciência que me altera o primeiro modo de ser é a paralela iluminação do modo de ser segundo. Decidi ainda antes de decidir, quando decidi não ser o que primeiramente decidira. Assim no torvelinho dos actos que me presentificam e da consciência desses actos, sempre o insondável de nós se abre para lá do que podemos sondar. Sempre a realidade de nós é a realidade original que na origens se gera. Sempre a autenticidade de nós está a uma distância infinita das razões que a justificam.
Vergílio Ferreira, in 'Invocação ao Meu Corpo'
Donnerstag, 4. August 2011
o que é que eu faço
com a tua presença
perpétua penetrante
permanente perdente
o que é que eu faço
com toda a tralha expulsa de mim
pensamentos presenças
poemas palavras perdidas
o que é que eu faço
com o espaço que sobra
o tempo que sobra
o sentimento que sobra
o que é que eu faço
com o vazio que sobra
com o silêncio que sobra
com a falta que me fazes
o que é que eu estou a fazer,
a perguntar justo a ti?
a perguntar justo a ti?
20/04/006
ondaJazz
Sonntag, 20. Februar 2011
O horizonte das palavras |
| Sem direcção, sem caminho escrevo esta página que não tem alma dentro. Se conseguir chegar à substância de um muro acenderei a lâmpada de pedra na montanha. E sem apoio penetro nos interstícios fugidios ou enuncio as simples reiterações da terra, as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos. Tentarei construir a consistência num adágio de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes. E na substância entra a mão, o balbucio branco de uma língua espessa, a madeira, as abelhas, um organismo verde aberto sobre o mar, as teclas do verão, as indústrias da água. Eu sou agora o que a linguagem mostra nas suas verdes estratégias, nas suas pontes de música visual: o equilíbrio preenche os buracos com arcos, colinas e com árvores. Um alvor nasceu nas palavras e nos montes. O impronunciável é o horizonte do que é dito. António Ramos Rosa ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 81 |
Dienstag, 14. Dezember 2010
Tentas, de longe, dizer que estás aqui.
Com peso triste caminha na rua o Outono.
O meu coração debruça-se à janela
a ver pessoas e carros, e as folhas caíndo.
Mastigo esta solidão
como quando era pequeno e jantava
diante dos pais zangados:
devagar, ausente.
Fernando Assis Pacheco, in "A musa irregular"
Com peso triste caminha na rua o Outono.
O meu coração debruça-se à janela
a ver pessoas e carros, e as folhas caíndo.
Mastigo esta solidão
como quando era pequeno e jantava
diante dos pais zangados:
devagar, ausente.
Fernando Assis Pacheco, in "A musa irregular"
Ed. Asa, 1997
Freitag, 5. November 2010
Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sonntag, 31. Oktober 2010
São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto
à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão
Maria do Rosário Pedreira
Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa
que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me
a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.
Maria do Rosário Pedreira
Montag, 11. Oktober 2010
de protesto pelas vidas que lhe fogem
entre os dedos correntes vácuas tumultuosas
em leito superficial saltitam de seixo em seixo
perdendo-se em gotas que na margem morrem
Procura a voz profunda guia de viagens de outrora
infinitas de mente e coração e corpo
mergulhantes em abismos aterradores enfrentando
monstros uivantes até só restar o silêncio
Procura a voz que apenas no silêncio fala
aa
em leito superficial saltitam de seixo em seixo
perdendo-se em gotas que na margem morrem
Procura a voz profunda guia de viagens de outrora
infinitas de mente e coração e corpo
mergulhantes em abismos aterradores enfrentando
monstros uivantes até só restar o silêncio
Procura a voz que apenas no silêncio fala
aa
Sonntag, 3. Oktober 2010
Cordolium
página após página dos seus milhares de tomos
misturadas com rúbeo vinho entranha trago atrás de trago
em busca da transubstanciação
pressente o vácuo mediastino o ausente pulsar
em vão expõe a carne buscando o jorrar quente e humano
por vezes parece vislumbrar um bater que já foi seu
por becos e vielas persegue metânicos fogos-fátuos
mas espantado pela aurora volta aos seus incunábulos
folha a folha gole a gole busca a plenitude o sentir
misturadas com rúbeo vinho entranha trago atrás de trago
em busca da transubstanciação
pressente o vácuo mediastino o ausente pulsar
em vão expõe a carne buscando o jorrar quente e humano
por vezes parece vislumbrar um bater que já foi seu
por becos e vielas persegue metânicos fogos-fátuos
mas espantado pela aurora volta aos seus incunábulos
folha a folha gole a gole busca a plenitude o sentir
aa

O texto mais calado
É mais fácil escrever sem as mãos. Todas as pessoas do mundo são escritoras, sobretudo aquelas pessoas que nunca leram Rilke, nem choraram naquela página de Proust que é um manto de palavras sobre as madalenas e as lajes do tempo. Escrever sem as mãos acontece-me quando sei que sou mais, porque sinto que posso ser. A carne frágil das minhas mãos, cheia de febre, é só uma morte espantosa, o que sobra do tempo do mundo que admira o texto mais calado. Olho as fotografias dos meus avós e nelas vejo apenas o silêncio que foi retratado, uma luz que surpreende os meus olhos como se esta decorresse sempre do princípio da noite. Não há um único texto nestes retratos. A minha avó, feita de flor inteira, morreu dentro do meu corpo feito de estilhaços de pétalas e bátegas de vidro; o meu corpo é um buril que desenrola a melancolia. Talvez não importe mais nada a não ser isto. Uma noite longa que me venha consolar de vez em quando com as suas mãos de tecedeira, que me recolha dentro do berço futuro do meu passado, que me faça desaparecer das minhas mãos para as suas.
Sandra Costa
Abriu no colchão as valas possíveis
e enterrou por ordem alfabética
cada parte do corpo: os pêlos
os pântanos as unhas encravadas
e as unhas que outros cravaram pelas coxas.
Estudou cuidadosamente as ondas as horas
para que não restassem dúvidas
sobre os caminhos marítimos
para a noite. Por fim
podou todas as janelas do quarto;
bebeu o vinho;
roeu a carne do quarto
até não sobrar nenhum coração.
catarina nunes de almeida
(arte: Roxanne Jackson: eat your heart out)
Mittwoch, 11. August 2010

E não queiras depois fazer amor.
Convida-me só para jantar
num restaurante sossegado
numa mesa de canto
e fala devagar
e fala devagar
eu quero comer uma sopa quente
não quero comer mariscos
os mariscos atravancam-me o prato
e estou cansada para os afastar
fala assim devagar
devagar
não é preciso dizeres que sou bonita
mas não me fales de economia e de política
fala assim devagar
devagar
deita-me o vinho devagar
quando o meu copo estiver vazio.
Estou convalescente
sou convalescente
não é preciso que o percebas
mas por favor não faças força em mim.
Fala, estás-me a dar de jantar
estás-me a pôr recostada à almofada
estás-me a fazer sorrir ao longe
fala assim devagar
devagar
devagar
Ana Goês
In 366 poemas que falam de amor
Antologia organizada por
Vasco Graça Moura

feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras distantes...
- palavras que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo
até não se sabe quando...
- e um dia me acabarei.
Cecília Meireles
Mittwoch, 4. August 2010

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida
foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama
e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
Maria do Rosário Pedreira
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida
foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama
e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
Maria do Rosário Pedreira
Mittwoch, 7. Juli 2010
Eternidade
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