o que é que eu faço
a perguntar justo a ti?
Searching for what I need, and I don't even know precisely what that is, I was going from a man to a man, and I saw that all of them together have less than me who has nothing, and that I left to each of them a bit of that what I don't have and I've been searching for. Ivo Andric
O horizonte das palavras |
| Sem direcção, sem caminho escrevo esta página que não tem alma dentro. Se conseguir chegar à substância de um muro acenderei a lâmpada de pedra na montanha. E sem apoio penetro nos interstícios fugidios ou enuncio as simples reiterações da terra, as palavras que se tornam calhaus na boca ou nos meus passos. Tentarei construir a consistência num adágio de sílabas silvestres, de ribeiros vibrantes. E na substância entra a mão, o balbucio branco de uma língua espessa, a madeira, as abelhas, um organismo verde aberto sobre o mar, as teclas do verão, as indústrias da água. Eu sou agora o que a linguagem mostra nas suas verdes estratégias, nas suas pontes de música visual: o equilíbrio preenche os buracos com arcos, colinas e com árvores. Um alvor nasceu nas palavras e nos montes. O impronunciável é o horizonte do que é dito. António Ramos Rosa ACORDES, QUETZAL EDITORES, 1990, 2ª EDIÇÃO, P. 81 |









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Parece-me que a humanidade precisa de finalmente amadurecer.
Uma criança atribui poderes divinos aos seus pais, não conhece reponsabilidade, nem dever. Mas à medida que cresce, reconhece em si os poderes dos pais. Revoltando-se inicialmente contra essa realidade, acusa os pais de impostores, recusa esses poderes, apesar de os usar, quando lhe convém, sem responsabilidade e sem dever. Com o progressivo amadurecimento, reconhece que o erro de percepção foi seu, devido à sua inexperiência, e aceita a adultícia, com os deveres e responsabilidades inerentes.
Falta darmos o último passo, como Homens e Mulheres: aceitar o nosso poder como espécie, aceitar o Bem e o Mal de que dele advém e aceitar que a transcendência está em nós.
O difícil é o abandonar da esperança, de que há-de vir alguém e salvar-nos.
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A propósito de uma discussão amigável
Do Outro ao nosso lado ou à nossa frente só vemos a sombra projectada na parede da caverna porque não o podemos ver de dentro para fora, como nos vemos a nós.
O Conhecer...
Temo que não acredito que se possa conhecer o Outro na sua íntegra. Porquê?
Em primeiro lugar era preciso que o Outro se conhecesse a si próprio profunda e absolutamente, o que é raro, porque, como bem disseste, nós somos seres mutáveis, interconectados.
Em segundo lugar, era preciso que esse conhecimento pudesse ser comunicado a mim, na sua essência. A conditio sine qua non para que isso acontecesse seria a existência da comunicação perfeita. Ora, a Humanidade sabe, desde o tempo dos mitos, que a comunicação absoluta entre dois seres é algo divino: na alegoria da Torre de Babel, Deus destrói essa possibilidade por ter inveja da unidade que esse entendimento gera - divide et impera.
E em terceiro lugar, era preciso que eu, como receptor, fosse vácuo para não modular a mensagem perfeita do meu Próximo. O esvaziamento de si é procurado por muitos místicos para alcançar o Preenchimento total pelo divino ou Eterno, como eu lhe chamo.
Procuro conhecer o Outro, mas confesso ainda me encontrar no primeiro passo - conhecer-me a mim, para me poder esvaziar de mim.
E então ser vaso para o Outro.

Poema
A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
Sophia de Mello Breyner Andresen




