Sonntag, 31. Oktober 2010


Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa


que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me


a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

Maria do Rosário Pedreira

Montag, 11. Oktober 2010



















Procura a sua voz há anos muda em sinal

de protesto pelas vidas que lhe fogem
entre os dedos correntes vácuas tumultuosas
em leito superficial saltitam de seixo em seixo
perdendo-se em gotas que na margem morrem


Procura a voz profunda guia de viagens de outrora
infinitas de mente e coração e corpo
mergulhantes em abismos aterradores enfrentando
monstros uivantes até só restar o silêncio


Procura a voz que apenas no silêncio fala


aa

Sonntag, 3. Oktober 2010

Cordolium



o homem sem coração mastiga sem cessar
página após página dos seus milhares de tomos

misturadas com rúbeo vinho entranha trago atrás de trago
em busca da transubstanciação

pressente o vácuo mediastino o ausente pulsar
em vão expõe a carne buscando o jorrar quente e humano

por vezes parece vislumbrar um bater que já foi seu
por becos e vielas persegue metânicos fogos-fátuos

mas espantado pela aurora volta aos seus incunábulos
folha a folha gole a gole busca a plenitude o sentir


aa

Lhasa de Sela



O texto mais calado

É mais fácil escrever sem as mãos. Todas as pessoas do mundo são escritoras, sobretudo aquelas pessoas que nunca leram Rilke, nem choraram naquela página de Proust que é um manto de palavras sobre as madalenas e as lajes do tempo. Escrever sem as mãos acontece-me quando sei que sou mais, porque sinto que posso ser. A carne frágil das minhas mãos, cheia de febre, é só uma morte espantosa, o que sobra do tempo do mundo que admira o texto mais calado. Olho as fotografias dos meus avós e nelas vejo apenas o silêncio que foi retratado, uma luz que surpreende os meus olhos como se esta decorresse sempre do princípio da noite. Não há um único texto nestes retratos. A minha avó, feita de flor inteira, morreu dentro do meu corpo feito de estilhaços de pétalas e bátegas de vidro; o meu corpo é um buril que desenrola a melancolia. Talvez não importe mais nada a não ser isto. Uma noite longa que me venha consolar de vez em quando com as suas mãos de tecedeira, que me recolha dentro do berço futuro do meu passado, que me faça desaparecer das minhas mãos para as suas.

Sandra Costa

Abriu no colchão as valas possíveis
e enterrou por ordem alfabética
cada parte do corpo: os pêlos
os pântanos as unhas encravadas
e as unhas que outros cravaram pelas coxas.
Estudou cuidadosamente as ondas as horas
para que não restassem dúvidas
sobre os caminhos marítimos
para a noite. Por fim
podou todas as janelas do quarto;
bebeu o vinho;
roeu a carne do quarto
até não sobrar nenhum coração.

catarina nunes de almeida

(arte: Roxanne Jackson: eat your heart out)

Mittwoch, 11. August 2010


E não queiras depois fazer amor.
Convida-me só para jantar
num restaurante sossegado
numa mesa de canto
e fala devagar
e fala devagar
eu quero comer uma sopa quente
não quero comer mariscos
os mariscos atravancam-me o prato
e estou cansada para os afastar
fala assim devagar
devagar
não é preciso dizeres que sou bonita
mas não me fales de economia e de política
fala assim devagar
devagar
deita-me o vinho devagar
quando o meu copo estiver vazio.
Estou convalescente
sou convalescente
não é preciso que o percebas
mas por favor não faças força em mim.
Fala, estás-me a dar de jantar
estás-me a pôr recostada à almofada
estás-me a fazer sorrir ao longe
fala assim devagar
devagar
devagar


Ana Goês
In 366 poemas que falam de amor
Antologia organizada por
Vasco Graça Moura


Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras distantes...
- palavras que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo
até não se sabe quando...
- e um dia me acabarei.

Cecília Meireles

Mittwoch, 4. August 2010



Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.


Maria do Rosário Pedreira

Mittwoch, 7. Juli 2010

Eternidade



Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.


Jorge de Sena, in 'Perseguição'

Dienstag, 29. Juni 2010

Sê paciente; espera



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade

Freitag, 18. Juni 2010



Wartende


Sie sitz an einem Tisch für zwei Personen
allein mit diesem wachen starren Blick
schaut sie umher als hätte sie was verloren
und hält sich fest an einem Buch: Ihr Strick


der sie herauszieht aus den Augenpaaren
die nach ihr züngeln mitleidlos und spitz
wie Wellen über ihr zusammenschlagen
sie niederdrücken auf den Plastiksitz


der unter ihren Schenkeln klebt. Sie schwenkt
ihr Glas das Eis schmilzt klirrend schneller
sie selbst wird immer kleiner und versänk


gern als Erfindung in ihr Buch
das sie nun zuschlägt. Eh sie auftaucht
zahlt und geht. Es ist genug.


Ulla Hahn

Mittwoch, 27. Januar 2010

Freitag, 22. Januar 2010



Palace Brothers

You will miss me when I burn

When you have no one
No one can hurt you
When you have no one
No one can hurt you

In the corner there is light
That is good for you
And behind you, I have warned you
There are awful things

Will you miss me when I burn
And will you eye me with a longing?
It is longing that I feel
To be missed or to be real

When you have no one
No one can hurt you
When you have no one
No one can hurt you

Will you miss me when I burn
And will you close the others' eyes
It would be such a favor
If you would blind them

There is absence, there is lack
There are wolves here abound
You will miss me
When I turn around

When you have no one
No one can hurt you
When you have no one
No one can hurt you

Mittwoch, 20. Januar 2010



MELODIA

Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.

José Agostinho Baptista
in
Paixão e Cinzas
Assírio & Alvim, 1992

Montag, 2. November 2009


1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte

coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?

Eugénio de Andrade


Donnerstag, 15. Oktober 2009



Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.

Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...

Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.

Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver?

A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...

Tem de se arrumar muito depressa.

Há felizmente o estilo.

Não calcula o que seja?

Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.

Faço-me entender?

Não?

Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.

HERBERTO HELDER
Os Passos em Volta

(Assírio & Alvim, 1997)

Donnerstag, 8. Oktober 2009



e o que me apoquenta nem é
a dúvida do ser ou não ser
nem do porquê temporal ou do
como
não quero saber do que os outros
pensam não me importam os olhares
conspiradores que lançam através
dos seus telhados de vidro não
há palavras que me magoem não é
isso
de que tenho medo é da
decisão da palavra dita ou não
dita do acto executado ou só
pensado da realidade que toma
formas sem ter substância do
que não sei e nem imagino
e fujo
dos teus olhares perplexos de quem
não entende as ambiguidades

aa

Freitag, 2. Oktober 2009



Mãe, eu quero ir-me embora.
A vida não é nada daquilo que disseste quando os meus seios começaram a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande, murcharam tão depressa as rosas que me deram. Se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora.
Os meus sonhos estão cheios de pedras e de terra e, quando fecho os olhos, só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos os sonhos que tiveste para mim. Tenho a casa vazia, deitei-me com mais homens do que aqueles que amei e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora.
Nenhum sorriso abre caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca. Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez não chames pelo meu nome, não me peças que fique. As lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora.
Esperei a vida inteira por quem nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem. Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas essa voz, tu sabes, não é a tua.

A última canção sobre o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira
In "O Canto do Vento nos Ciprestes"

Freitag, 5. Juni 2009

Sonntag, 24. Mai 2009

Dienstag, 19. Mai 2009



...quando os Deuses criaram o Mundo dos Homens, fizeram-no à Sua imagem, perfeito, imutável e imaculado. Perplexos assistiram ao definhar em massa da humanidade, em letargia anódina. Perceberam então, na Sua infinita sabedoria, que os Homens morriam por falta de sonhos. Voltaram então a criar o Mundo à imagem dos Homens, com falhas, inconstante e injusto. E os Homens sonharam com a Felicidade.

Montag, 18. Mai 2009



Gaiola de Vidro


Como paredes
através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros
quem vamos conhecendo nos rodeia
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.

No espaço dentro (mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas)
nós somos quem somos: só distintos
de cada um dos outros, para quem
apenas somos a face em muitas,
pelo que em nós se torna, além do espaço,
uma visão de espelhos transparentes.

Mas o que nos distingue não existe

Jorge de Sena

Freitag, 24. April 2009



I gave you a child, and you didnt want it

Thats the most that I have to give.
I gave you a house, and you didnt want it
Now where am I supposed to live.
I gave you a tree and you did not embrace it
I gave you a nightmare and you didnt chase it
I'd give you a dream and you'd only wake from it
Now I'll never go to sleep again.
I'd give you a treasure and you'd only take from it
Look at the hole where jewlery had been
Baby oh baby
Why must you espcape from it
This love that we once called our friend.

I gave you my body and you ate aplenty
I gave you ten lives and you wasted twenty.
Now I'm standing empty, helpless and bare, without a morsel left of me to give
And you, you have vanished, into the air
The air in which I must live

Bonnie Prince Billy

Samstag, 11. April 2009

http://static.picassomio.com/images/art/pm-12063-large.jpg

Nunca fui como todos

Nunca tive muitos amigos

Nunca fui favorita

Nunca fui o que meus pais queriam

Nunca tive alguém que amasse

Mas tive somente a mim

A minha absoluta verdade

Meu verdadeiro pensamento

O meu conforto nas horas de sofrimento

não vivo sozinha porque gosto

e sim porque aprendi a ser só...

Florbela Espanca
http://www.anossaancora.org/pagina/images/dia_pai_2003.jpg

O Pai


Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage

Freitag, 10. April 2009



Parece-me que a humanidade precisa de finalmente amadurecer.

Uma criança atribui poderes divinos aos seus pais, não conhece reponsabilidade, nem dever. Mas à medida que cresce, reconhece em si os poderes dos pais. Revoltando-se inicialmente contra essa realidade, acusa os pais de impostores, recusa esses poderes, apesar de os usar, quando lhe convém, sem responsabilidade e sem dever. Com o progressivo amadurecimento, reconhece que o erro de percepção foi seu, devido à sua inexperiência, e aceita a adultícia, com os deveres e responsabilidades inerentes.

Falta darmos o último passo, como Homens e Mulheres: aceitar o nosso poder como espécie, aceitar o Bem e o Mal de que dele advém e aceitar que a transcendência está em nós.

O difícil é o abandonar da esperança, de que há-de vir alguém e salvar-nos.

aa



“There is a vitality, a life force, a quickening that is translated through you into action, and there is only one of you in all time, this expression is unique, and if you block it, it will never exist through any other medium; and be lost. The world will not have it. It is not your business to determine how good it is, not how it compares with other expression. It is your business to keep it yours clearly and directly, to keep the channel open. You do not even have to believe in yourself or your work. You have to keep open and aware directly to the urges that motivate you. Keep the channel open. No artist is pleased. There is no satisfaction whatever at any time. There is only a queer, divine dissatisfaction, a blessed unrest that keeps us marching and makes us more alive than the others.”
Martha Graham

Sonntag, 8. Februar 2009



Quem morre?

Morre lentamente
quem se transforma
em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca.
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou quem não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente

quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,

sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,

fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,

quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece

ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.


Gabriel Garcia Marquez

Samstag, 7. Februar 2009

Pledge



To love. To be loved. To never forget your own insignificance. To never get used to the unspeakable violence and the vulgar disparity of life around you. To seek joy in the saddest places. To pursue beauty to its lair. To never simplify what is complicated or complicate what is simple. To respect strength, never power. Above all, to watch. To try and understand. To never look away. And never, never, to forget.


ARUNDHATI ROY


"Our truest responsibility to the irrationality of the world is to paint or sing or write, for only in such response do we find the truth."

Madeleine L'Engle

Freitag, 6. Februar 2009



Em teoria, se no decurso da evolução, os seres vivos saíram do mar para conquistar a terra, aquelas espécies que, depois desse passo dado, continuaram a evoluir no sentido de retornar ao mar, encontrar-se-iam num estado evolutivo mais avançado.

Teríamos que olhar então de maneira diferente para os golfinhos ou as baleias, que percorreram esse caminho, e cujos trinares e cantos estudamos com afinco, atribuindo-lhes alguma capacidade comunicativa. Mas não será, de facto, possível, que o nosso estadio evolutivo seja inferior ao deles e que comuniquem com eficácia infinitamente maior?

A comunicação perfeita seria aquela em que a linguagem, por desnecessária, seria abolida, em que haveria uma partilha completa e constante de ideias - uma espécie de mente colectiva.


"O verdadeiro e o falso são atributos da linguagem, não das coisas.
E onde não há linguagem, não há verdade nem falsidade."

Thomas Hobbes in Leviatã

Mittwoch, 4. Februar 2009

A Maldade Espiritualiza-se



O julgamento e a condenação morais são a vingança predilecta dos espíritos tacanhos para com os que são menos, além de uma espécie de indemnização por terem sido mal dotados pela natureza, e finalmente uma oportunidade de eles próprios obterem espírito e tornarem-se finos: - a maldade espiritualiza-se. Bem no fundo do coração agrada-lhes que exista um padrão que ponha ao seu nível os abundantemente dotados de bens e privilégios de espírito: - lutam pela «igualdade de todos perante Deus» e para isso é que quase precisam da fé em Deus.

Friedrich Nietzsche, in 'Para Além de Bem e Mal'

Samstag, 15. November 2008

Conhecer o Absoluto



A propósito de uma discussão amigável


Do Outro ao nosso lado ou à nossa frente só vemos a sombra projectada na parede da caverna porque não o podemos ver de dentro para fora, como nos vemos a nós.

O Conhecer...

Temo que não acredito que se possa conhecer o Outro na sua íntegra. Porquê?

Em primeiro lugar era preciso que o Outro se conhecesse a si próprio profunda e absolutamente, o que é raro, porque, como bem disseste, nós somos seres mutáveis, interconectados.

Em segundo lugar, era preciso que esse conhecimento pudesse ser comunicado a mim, na sua essência. A conditio sine qua non para que isso acontecesse seria a existência da comunicação perfeita. Ora, a Humanidade sabe, desde o tempo dos mitos, que a comunicação absoluta entre dois seres é algo divino: na alegoria da Torre de Babel, Deus destrói essa possibilidade por ter inveja da unidade que esse entendimento gera - divide et impera.

E em terceiro lugar, era preciso que eu, como receptor, fosse vácuo para não modular a mensagem perfeita do meu Próximo. O esvaziamento de si é procurado por muitos místicos para alcançar o Preenchimento total pelo divino ou Eterno, como eu lhe chamo.


Procuro conhecer o Outro, mas confesso ainda me encontrar no primeiro passo - conhecer-me a mim, para me poder esvaziar de mim.

E então ser vaso para o Outro.

Freitag, 7. November 2008



Zeitreise

Vozes no escuro
De repente não passaram dois anos
Continuas
Buscando minhas jugulares
Tentaculando meus pulsos
Confundindo-me
Com quem já não sou
Renascer que tive
Sob forma marcial
Após teu abandono
Por morta
No campo de batalha

Setúbal
06-04-008

aa

Dienstag, 14. Oktober 2008


Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mittwoch, 9. Juli 2008



Der Abgerissene Strick

Der abgerissene Strick
kann wieder geknotet werden
er hält wieder, aber
er ist zerrissen.

Vielleicht begegnen
wir uns wieder,
aber da,
wo du mich verlassen hast
triffst du mich
nicht wieder.

Bertolt Brecht

Dienstag, 1. Juli 2008



Sob a Via Láctea ao som das cigarras envolta no infinito
Sem artifícios sociais ou pseudo-necessidades
Atenta a cada respiração como se a última fosse
Lastimando o rápido passar das horas
Consciente da brevidade da vida e do cácere do hábito
Que nos tolda a liberdade com a nossa aquiescência
Luto contra o sono que me roubará à noite
Entregando-me de novo ao dia em que terei de
Voltar a prender as cordas de títere aos membros
E dançar a peça ensaiada para gáudio geral

Há-de chegar o dia em que tudo será estrelas e
Som das cigarras e águas correntes e
Tudo o que importará será
Respirar liberdade


01-07-008

aa

Sonntag, 15. Juni 2008


Trazes a prenda
que inutiliza o frio
calculo inatingível
evitas a torrente
supérflua de voz
e em mim age
uma justa medida
subitamente ali
à mão

R. S.

Re/

Superficial corrente,
a voz que brinca
arrasta somente
quem à tona se mantém.

Profundas acalmias
a alma sapiente
procura o silêncio
continente da Verdade.

aa

Dienstag, 10. Juni 2008



BPM 37093

De carbono consistimos.
Dele vimos, a ele
havemos de voltar.

Nossas vidas:
comprimidas,
momento material
entre gás e poeira.

A Escolha:
combustão instantânea,
esvanecimento em fumo fugaz,
a todos visível,

ou

talha sensata,
lapidação paciente,
sacrifício das impurezas,
espalhando poeira adamantina,
culminando na escolha
do mais perfeito engaste.

O valor da jóia final
só entendidos apreenderão.

10-06-008
aa

Sonntag, 8. Juni 2008



Tu ne seras jamais heureux si tu continues à chercher en quoi consiste le bonheur. Et tu ne vivras jamais si tu recherches le sens de la vie.

Albert Camus

Samstag, 7. Juni 2008



Tu envias poesia alheia

caso raro:

não te falta

abunda no menor recesso
a intensidade

da vida própria

R. S.


Re/


Vã comparação
A dos Oceanos Perenes

Face aos charcos pós-pluviais
Que o mais fraco Sol
Evapora

aa

Mittwoch, 4. Juni 2008



botões de madrepérola

volto lá
dois anos depois
às ruas desertas sem ti
aos jardins vazios de ti
à música atonal

danço de braços vazios
nos braços de outro que não tu

não te procuro
nos túneis do metro
o olhar errante não repousa
na múltidão vácua de ti
no teu andar

de entre os odores anósmicos
da cidade não me atrai o teu

deslizo pelo tempo parado
protegida por paredes
de bolha
de sabão
aliviada

porque já te esqueci

03/06/008
Estrela Hall

aa

Dienstag, 3. Juni 2008



Só Se Possuem Eternamente os Amigos de Quem Nos Separamos

O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não estou inquieto por aqueles que ainda não conheces, ao encontro de quem vais e que porventura te esperam: aquele que eles vão conhecer será diferente daquele que eu julguei conhecer e creio amar. Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.


Gherardo, não te enganes sobre as minha lágrimas: vale mais que os que amamos partam quando ainda conseguimos chorá-los. Se ficasses, talvez a tua presença, ao sobrepor-se-lhe, enfraquecesse a imagem que me importa conservar dela. Tal como as tuas vestes não são mais que o invólucro do teu corpo, assim tu também não és mais para mim do que o invólucro de um outro que extraí de ti e que te vai sobreviver. Gherardo, tu és agora mais belo que tu mesmo.


Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.


Marguerite Yourcenar, in "Sistina"

Sonntag, 18. Mai 2008



Amizade


Discordamos em quase tudo

Esgrimimos todos os argumentos

Opondo-nos a qualquer entendimento fácil

Exigimos a mais crua franqueza

Expondo carne até ao osso

Sangrante da Verdade


Não embelezamos as fraquezas

Acusamos qualquer leviandade

Recusando as palavras ociosas

Clamamos contra pensamentos vãos

Denunciamos actos inconsequentes

Contrários à Rectidão


Crescemos em exigência

Alimentados pelo mútuo sangrar

Pedra a pedra arremessada

Construímos uma Fortaleza

De Amizade Radical.


aa

Freitag, 16. Mai 2008

http://formiguinhaatomica3.no.sapo.pt/DSCN1574_B.jpg

"para ser lido com crescente rapidez e decrescente certeza

amigo que pensas que eu não

saiba todo o mundo que amigos

como nós já não os há quem

os faça como nós já não há

necessidade de falar quase que

chega o arquear de uma sobrancelha

cerrada a porta do entendimento que

nós somos amigos até sermos areia

do mesmo deserto assim o jurámos

quando ainda havia necessidade de

falar contigo é o meu mais ardente

anseio fútil eu sei porque de palavras nós

não necessitamos para nos entender

e é tudo tão belo tão profundo

para quê perder tempo com o adquirido

entre nós o silêncio grávido que nunca

mais dá à luz AMIGO QUE PENSAS?"


aa

Dusseldorf, 10.01.1998

Dienstag, 13. Mai 2008

Não Há Dor Que Justifique a Fuga

A escuridão, as trevas desesperadas, é esse o círculo terrível da vida do dia-a-dia. Por que é que uma pessoa se levanta de manhã, come, bebe e se deita outra vez? A criança, o selvagem, o jovem saudável, o animal não padecem sob a rotina deste círculo de coisas e actividades indiferentes. Aquele a quem os pensamentos não atormentam, alegra-se com o levantar pela manhã e com o comer e o beber, acha que é o suficiente e não quer outra coisa.

Mas quem viu esta naturalidade perder-se, procura no decurso do dia, ansioso e desperto, os momentos da verdadeira vida cujas cintilações o tornam feliz e que apagam a sensação de que o tempo reúne em si todos os pensamentos relativos ao sentido e ao objectivo de tudo. Podem chamar a esses momentos, momentos criadores, porque parece que trazem a sensação de união com o criador, porque se sente tudo como desejado, mesmo que seja obra do acaso. É aquilo a que os místicos chamam união com Deus. Talvez seja a luz muito clara desses momentos que faz parecer tudo tão escuro, talvez a libertadora e maravilhosa leveza desses momentos faça sentir o resto da vida tão pesada, pegajosa e opressiva. Não sei, não aprofundei muito o pensamento e a tirada filosófica. Mas sei que se há bem-aventurança e um paraíso tem de ser uma duração incólume de tais momentos, e se se pode obter esta felicidade pela dor e pela sublimação na dor, não há nenhuma dor que justifique a fuga.

Hermann Hesse, in "Gertrud" (personagem Kuhn)

Dienstag, 22. April 2008



A mesma mão que me enterra a adaga até ao punho nas costas afaga-me o pêlo eriçado enquanto indagas carinhosamente pela razão da súbita palidez dos meus afectos exsanguinados.

aa


“Fiéis são as feridas d'um amigo; mas os beijos d'um inimigo são enganosos.”

Provérbios 27:6



Carlos Drummond de Andrade

Dienstag, 15. April 2008



Ligas-me às duas da manhã.

Interrompes o meu primeiro sono, de
saída de banco, cansada até
à náusea, como bem sabes,

tendo sido tu quem
me manteve
acordada até tarde
com crises existenciais.

Aos 45 anos ainda te indignas com
o egoísmo das pessoas.

Pois.

Que francamente ninguém pensa
senão em si.

Pois.

Que nem dormir consegues
perante tal epifania.

Pois.

Que não te parece que eu
alcance a gravidade da situação.

Pois não.

Que justamente de mim
esperarias mais apoio.

E eu, que aos 35 anos já não me
espanto com a cegueira das pessoas,
mando-te à merda,
adormecendo de novo
ainda a ligação não caíu.

aa, 12.04.008
Vértigo

Freitag, 11. April 2008


Certas palavras

Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não divinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, atos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos

É tudo proibido. Então, falamos.

Carlos Drummond de Andrade

Donnerstag, 10. April 2008



Júbilo

E depois dias há em que o júbilo

é indescritível no meu peito

batem cem corações felizes.

Todos os cuidados pelo esgoto abaixo

e tu arrastado com eles.

O mundo está de novo aí.

Nada mais a esperar

nada mais a temer

de ti.


Ulla Hahn (trad. J.Barrento)



Ich bin die Frau

Ich bin die Frau
die man wieder mal anrufen könnte
wenn das Fernsehen langweilt

Ich bin die Frau
die man wieder mal einladen könnte
wenn jemand abgesagt hat

Ich bin die Frau
die man lieber nicht fragt
nach einem Foto vom Kind

Ich bin die Frau
die keine Frau ist
fürs Leben.


Eu sou aquela mulher

Eu sou aquela mulher
a quem se poderia mais uma vez
ligar
quando a televisão aborrece

Eu sou aquela mulher
que se poderia mais uma vez
convidar
quando alguém cancelou

Eu sou aquela mulher
à qual é melhor não perguntar

por uma foto da criança

Eu sou aquela mulher
que não é mulher

para a vida.

Ulla Hahn (trad. por aa)