Dienstag, 29. Juni 2010

Sê paciente; espera



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade

Freitag, 18. Juni 2010



Wartende


Sie sitz an einem Tisch für zwei Personen
allein mit diesem wachen starren Blick
schaut sie umher als hätte sie was verloren
und hält sich fest an einem Buch: Ihr Strick


der sie herauszieht aus den Augenpaaren
die nach ihr züngeln mitleidlos und spitz
wie Wellen über ihr zusammenschlagen
sie niederdrücken auf den Plastiksitz


der unter ihren Schenkeln klebt. Sie schwenkt
ihr Glas das Eis schmilzt klirrend schneller
sie selbst wird immer kleiner und versänk


gern als Erfindung in ihr Buch
das sie nun zuschlägt. Eh sie auftaucht
zahlt und geht. Es ist genug.


Ulla Hahn

Mittwoch, 27. Januar 2010

Freitag, 22. Januar 2010



Palace Brothers

You will miss me when I burn

When you have no one
No one can hurt you
When you have no one
No one can hurt you

In the corner there is light
That is good for you
And behind you, I have warned you
There are awful things

Will you miss me when I burn
And will you eye me with a longing?
It is longing that I feel
To be missed or to be real

When you have no one
No one can hurt you
When you have no one
No one can hurt you

Will you miss me when I burn
And will you close the others' eyes
It would be such a favor
If you would blind them

There is absence, there is lack
There are wolves here abound
You will miss me
When I turn around

When you have no one
No one can hurt you
When you have no one
No one can hurt you

Mittwoch, 20. Januar 2010



MELODIA

Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.

José Agostinho Baptista
in
Paixão e Cinzas
Assírio & Alvim, 1992

Montag, 2. November 2009


1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte

coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?

Eugénio de Andrade


Donnerstag, 15. Oktober 2009



Se eu quisesse, enlouquecia.
Sei uma quantidade de histórias terríveis.

Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...

Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso.

Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver?

A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo...

Tem de se arrumar muito depressa.

Há felizmente o estilo.

Não calcula o que seja?

Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.

Faço-me entender?

Não?

Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida.

HERBERTO HELDER
Os Passos em Volta

(Assírio & Alvim, 1997)

Donnerstag, 8. Oktober 2009



e o que me apoquenta nem é
a dúvida do ser ou não ser
nem do porquê temporal ou do
como
não quero saber do que os outros
pensam não me importam os olhares
conspiradores que lançam através
dos seus telhados de vidro não
há palavras que me magoem não é
isso
de que tenho medo é da
decisão da palavra dita ou não
dita do acto executado ou só
pensado da realidade que toma
formas sem ter substância do
que não sei e nem imagino
e fujo
dos teus olhares perplexos de quem
não entende as ambiguidades

aa

Freitag, 2. Oktober 2009



Mãe, eu quero ir-me embora.
A vida não é nada daquilo que disseste quando os meus seios começaram a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande, murcharam tão depressa as rosas que me deram. Se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora.
Os meus sonhos estão cheios de pedras e de terra e, quando fecho os olhos, só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos os sonhos que tiveste para mim. Tenho a casa vazia, deitei-me com mais homens do que aqueles que amei e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora.
Nenhum sorriso abre caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca. Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez não chames pelo meu nome, não me peças que fique. As lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora.
Esperei a vida inteira por quem nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem. Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas essa voz, tu sabes, não é a tua.

A última canção sobre o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira
In "O Canto do Vento nos Ciprestes"

Freitag, 5. Juni 2009

Sonntag, 24. Mai 2009

Dienstag, 19. Mai 2009



...quando os Deuses criaram o Mundo dos Homens, fizeram-no à Sua imagem, perfeito, imutável e imaculado. Perplexos assistiram ao definhar em massa da humanidade, em letargia anódina. Perceberam então, na Sua infinita sabedoria, que os Homens morriam por falta de sonhos. Voltaram então a criar o Mundo à imagem dos Homens, com falhas, inconstante e injusto. E os Homens sonharam com a Felicidade.

Montag, 18. Mai 2009



Gaiola de Vidro


Como paredes
através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros
quem vamos conhecendo nos rodeia
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.

No espaço dentro (mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas)
nós somos quem somos: só distintos
de cada um dos outros, para quem
apenas somos a face em muitas,
pelo que em nós se torna, além do espaço,
uma visão de espelhos transparentes.

Mas o que nos distingue não existe

Jorge de Sena

Freitag, 24. April 2009



I gave you a child, and you didnt want it

Thats the most that I have to give.
I gave you a house, and you didnt want it
Now where am I supposed to live.
I gave you a tree and you did not embrace it
I gave you a nightmare and you didnt chase it
I'd give you a dream and you'd only wake from it
Now I'll never go to sleep again.
I'd give you a treasure and you'd only take from it
Look at the hole where jewlery had been
Baby oh baby
Why must you espcape from it
This love that we once called our friend.

I gave you my body and you ate aplenty
I gave you ten lives and you wasted twenty.
Now I'm standing empty, helpless and bare, without a morsel left of me to give
And you, you have vanished, into the air
The air in which I must live

Bonnie Prince Billy

Samstag, 11. April 2009

http://static.picassomio.com/images/art/pm-12063-large.jpg

Nunca fui como todos

Nunca tive muitos amigos

Nunca fui favorita

Nunca fui o que meus pais queriam

Nunca tive alguém que amasse

Mas tive somente a mim

A minha absoluta verdade

Meu verdadeiro pensamento

O meu conforto nas horas de sofrimento

não vivo sozinha porque gosto

e sim porque aprendi a ser só...

Florbela Espanca
http://www.anossaancora.org/pagina/images/dia_pai_2003.jpg

O Pai


Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage

Freitag, 10. April 2009



Parece-me que a humanidade precisa de finalmente amadurecer.

Uma criança atribui poderes divinos aos seus pais, não conhece reponsabilidade, nem dever. Mas à medida que cresce, reconhece em si os poderes dos pais. Revoltando-se inicialmente contra essa realidade, acusa os pais de impostores, recusa esses poderes, apesar de os usar, quando lhe convém, sem responsabilidade e sem dever. Com o progressivo amadurecimento, reconhece que o erro de percepção foi seu, devido à sua inexperiência, e aceita a adultícia, com os deveres e responsabilidades inerentes.

Falta darmos o último passo, como Homens e Mulheres: aceitar o nosso poder como espécie, aceitar o Bem e o Mal de que dele advém e aceitar que a transcendência está em nós.

O difícil é o abandonar da esperança, de que há-de vir alguém e salvar-nos.

aa



“There is a vitality, a life force, a quickening that is translated through you into action, and there is only one of you in all time, this expression is unique, and if you block it, it will never exist through any other medium; and be lost. The world will not have it. It is not your business to determine how good it is, not how it compares with other expression. It is your business to keep it yours clearly and directly, to keep the channel open. You do not even have to believe in yourself or your work. You have to keep open and aware directly to the urges that motivate you. Keep the channel open. No artist is pleased. There is no satisfaction whatever at any time. There is only a queer, divine dissatisfaction, a blessed unrest that keeps us marching and makes us more alive than the others.”
Martha Graham