Samstag, 15. Mai 2021
Freitag, 23. April 2021
Cantares
III
Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
Mittwoch, 21. April 2021
Dienstag, 20. April 2021
Sonntag, 18. April 2021
déjà-vu
não é altivez
o esquivar aos teus avanços
é recato
o esquivar aos teus avanços
é recato
não é orgulho
o rebater dos teus elogios
é honra
não é receio
o evitar dos teus olhares
é cansaço
o evitar dos teus olhares
é cansaço
não é tristeza
o ver-te nos braços de outra
é pesar
o ver-te nos braços de outra
é pesar
Porto, 16-02-006
Donnerstag, 15. April 2021
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Letzter Frühling
Nimm die Forsythien tief in dich hinein
und wenn der Flieder kommt, vermisch auch diesen
mit deinem Blut und Glück und Elendsein,
dem dunklen Grund, auf den du angewiesen.
Langsame Tage. Alles überwunden.
Und fragst du nicht, ob Ende, ob Beginn,
dann tragen dich vielleicht die Stunden
noch bis zum Juni mit den Rosen hin.
Gottfried Benn
Última Primavera
Apreende as forsítias no fundo do teu ser
e, quando vierem os liláses, mistura também estes
com o teu sangue e felicidade e miséria,
o solo escuro de que necessitas.
Dias lentos. Tudo superado.
E, caso não perguntes, se fim, se princípio,
se calhar as horas ainda te carregam
até ao junho e as rosas.
(Trad. AA)
Samstag, 10. April 2021
Sonntag, 4. April 2021
Donnerstag, 2. April 2020
Estética
Já amei louros de finos longos cabelos escorridos
Já amei mulatos de carapinha e pele fina
Já amei sensíveis e melômanos camionistas
Já amei grisalhos dissidentes comunistas
Já amei morenos árabes mouros germânicos
Já amei viris viriatos do campo nortenho
Já amei misturas doces sem encanto algum
Diz-me tu qual a minha estética
aa
29/07/2010
Já amei mulatos de carapinha e pele fina
Já amei sensíveis e melômanos camionistas
Já amei grisalhos dissidentes comunistas
Já amei morenos árabes mouros germânicos
Já amei viris viriatos do campo nortenho
Já amei misturas doces sem encanto algum
Diz-me tu qual a minha estética
aa
29/07/2010
Donnerstag, 6. September 2018
Samstag, 3. Dezember 2016
Samstag, 2. Mai 2015
Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido
os dedos que me
vogamnos cabelos
e os lábios que me
roçam pela bocanesta mansa tontura
em nunca tê-los...
Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...
Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.
Maria Teresa Horta
Freitag, 1. Mai 2015
Mittwoch, 21. Januar 2015
Sonntag, 18. Januar 2015
Mittwoch, 31. Dezember 2014
Não é difícil um homem apaixonar-se.
Ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga “estremeci
durante anos sem te abraçar.” Agora é tarde.
Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
“Passei a vida a fugir para a tua boca,” e
confundo já o teu rosto
com um qualquer.
Ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga “estremeci
durante anos sem te abraçar.” Agora é tarde.
Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
“Passei a vida a fugir para a tua boca,” e
confundo já o teu rosto
com um qualquer.
© 2000, Rui Coias
From: A Função do Geógrafo
Publisher: Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2000
ISBN: 972-8632-00-2
A NOSSA VEZ
É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar
e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera
e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez.
© 2005, Rui Pires Cabral
From: Longe da Aldeia
Publisher: Averno, Lisboa, 2005
É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar
e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera
e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez.
© 2005, Rui Pires Cabral
From: Longe da Aldeia
Publisher: Averno, Lisboa, 2005
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